
Que faço aqui?, por que me prendem?, a quem sirvo aqui encerrada?, que direito têm de prender-me entre estas paredes de aço e ferro, ferro e aço para prender os meus ossos tão frágeis que não lhes pertencem,
como podem cravar na minha pele o crime se eu recusei o crime deles, se o meu crime é só recusar o crime, fúria, fúria dentro, hoje, fúria mais forte do que o medo,
se o único crime é não carregar o crime, não comer do mesmo pão de ódio, por que me prendem?, se nasci sem pedir armas, se o único crime é nunca ter desejado disparar, nunca ter sentido fome desse pão?, de onde
lhes vem o poder para tocarem num só dos meus cabelos, quanto mais todo o meu corpo quebrado numa cela, de onde
lhes vem o poder sobre mim, se não lhes pertenço, se nunca tive fome do seu pão, de onde
lhes vem o poder?, se não está em mim o erro, a embriaguez, a insolência, se nunca prendi ninguém, nunca armei ninguém, nunca cozi o pão que mata,
se eu nunca bati a massa, nunca moí a farinha, nunca semeei, nunca feri a terra,
se eu nunca, eu nunca feri a terra?
Pedro Eiras

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